A moça da quitanda

E era na verdade uma sensação estranha que enfrentava, uma mistura de medo com prazer, mas não havia pudor em questão, o medo era mais em saber que o caminho era sem a possibilidade de volta. Adiante estaria aquele trabalho registrado indelevelmente em sua vida, estaria fechada a porta de poder apagar seu passado algum dia caso assim quisesse. No camarim de estrela com seu nome pensou na moça do interior que despertava a tara dos abastados que passavam de caminhonete na frente da quitanda do pai. Entre as cores e cheiros das frutas adorava desfilar com o vestido rodado feito pela tia, e ela moça sorria de vergonha sempre afeita de um absurdo frescor casto.
Agora era diva, poderosa, requisitada em shows nas casas noturnas, mas e as saudade dos pais? E o futuro sem a família católica que não a aceitava e não a entendia? E, não era um medo recheado de pudor, era mais do que isso.

Adorava sim as jóias caras e os presentes que ganhava, mas era quão prazeroso o bolo de fubá da mãe e o café quentinho da fazenda.
Sentia-se satisfeita mesmo quando a vó falava com orgulho da neta, que esta se formaria doutora em bichos. E tenho dito, terminava a velha.
Começou nessa vida quando ainda tinha que pagar os estudos na faculdade, uma amiga que “ganhava bem” lhe deu a dica. E ela foi, seu primeiro programa foi com um mancebo virgem, até gostou e quase gozou, pensou que não seria tão difícil, muito embora trabalhos seguintes lhe deram o choque de realidade, sendo assim, teve que tratar com todo o tipo de gente, eventualmente, alguns casais e até com os clientes tarados de gostos escatológicos, mas que sempre pagavam bem.

Suas experiências foram acumulando assim como seu padrão de vida. A faculdade e os estudos passaram a segundo plano e o trabalho era sua vida. Queria se sentir gostosa, desejada e por que não, a estrela. A diva… Mas tinha aquela saudade, sabe? E o plano primeiro, pagar a faculdade, juntar um dinheiro e sair fora…
Agora era uma “safa” na linguagem das amigas. Brilhou tanto e fez tanto sucesso no varejo que foi convidada para uma festa na casa de um ator de tevê, esse mesmo casado, desde seu primeiro encontro com ela, declarou-se apaixonado. Dizia nunca ter encontrado fêmea parecida e queria ela só para ele. Alugou apartamento, mobiliou tudo do bom e do melhor e exigiu exclusividade. Os encontros passaram a ser pontuais, dia sim e não, pela parte da manhã, entre as gravações da novela.
Agora era a “outra”, só faltava a carteira assinada, assim dizia em tom de brincadeira às amigas. Mas ela queria mais do que os fugazes encontros matinais com seu “amado”, e esporadicamente começou a fazer novos programas às escondidas na noite. Nunca fora descoberta, embora fosse afeita de chegar em casa com o pão quentinho da padaria do seo Geraldo.
Ao contrário, o amante sim, ator de sucesso foi flagrado e deu até capa de revista, por conta da delação de um porteiro que recebeu propina da revista de fofocas. E foi que os programas de tevê com paparazis e os apresentadores maliciosos davam detalhes da relação agora escancarada em toda a mídia. Ele não mais ligou nem atendeu seus chamados, escolheu a família e a abandonou sem aviso prévio, mandou o aspone fazer o serviço de desmanche das “coisas” e que se desculpou e jurou amor eterno, em nome do chefe, depois deixou um gordo cheque indenizatório em cima da mesa da sala.
Sem a sinecura se sentiu primeiramente livre para poder as claras recomeçar a carreira de “acompanhante”, retomou contatos esquecidos, disparou emails e torpedos. Em uma semana estava na plenitude, na ativa.
Cogitou-se um ensaio “artístico” numa revista masculina, mas passados os seus quinze minutos de fama se arrefeceu o interesse público. A fama passou, as entrevistas remuneradas que no inicio ela tanto recusou, também.
Pensava as vezes que seu erro maior fora ter trancado a faculdade de veterinária, queria voltar, mas tudo já era sem volta.
Mas nesse instante o diretor pediu que ficasse na posição de quatro apoios na sessão de fotos e sorrisse olhando para o ator viril que estava atras.
Alguém do fundo balbuciou, essa foto é a da capa. E o diretor de fotografia pediu que o câmera ajeitasse o foco naquele ponto…
E mais uma vez pensou na moça do interior que despertava a tara dos abastados que passavam de caminhonete na frente da quitanda do pai. E era na verdade uma sensação estranha que enfrentava, uma mistura de medo com prazer, mas não havia pudor em questão, o medo era mais em saber que o caminho era sem volta…