Rapidinha, por Fran

Tinha dois dias que eu tinha terminando com o Léo. As coisas ainda estavam recentes, mas decidi que não iria chorar e que minhas amigas estavam certas. A hora era de badalar. Peguei um vestido que o Léo havia apelidado de “vestido da discórdia”, por que ele ressaltava todas as curvas e detalhes do meu corpo. Nunca tive o corpo marombado, mas seios, coxas e bumbum faziam a orquestra perfeita no meu corpo de brasileira e quando eu usava aquele vestido, sempre chamava a atenção. Decidi que seria com ele que badalaria aquele dia.
Marquei com as meninas no barzinho por volta das 22:00. Senti-me meio deslocada, afinal, depois de um namoro de 6 anos, já não sabia nem como era sair sozinha. Mas estava disposta a curtir. Quando cheguei, avistei todas numa mesa mais isolada, no canto esquerdo do bar, do lado oposto do som, já sobressaltas. Pela quantidade de bebidas, logo percebi o porquê. Mal perceberam minha presença, começaram a gritar por meu nome, o que chamou a atenção das pessoas que estavam nas mesas ao lado. Abracei uma por uma das cinco que me esperavam e uma delas já me entregou o copo de vodka para “início” dos trabalhos, como bem definiu.
Entre um copo e outro de vodka, decidimos ir para a pista, dançar. Estávamos curtindo muito quando, repentinamente, senti um solavanco no meu braço esquerdo. Doeu. Virei pronta para brigar, quando me deparei com aquele moreno lindo, cabelos lisos penteados para trás com gel, olhos claros, boca carnuda e um corpo escultural, vestido numa calça jeans, uma camisa que só tinha a parte da frente colocada por dentro da calça, com mangas dobradas até o cotovelo, uma sapatênis cor gelo com detalhes em azul e vermelho, num estilo despojado chique mais lindo que eu já tinha visto. Fiquei sem fala. Ele me perguntou se machucou e imediatamente balancei a cabeça afirmando que sim. Ele me puxou para um canto e quis saber onde exatamente tinha machucado, quando finalmente despertei daquele transe. Expliquei que não tinha sido nada, apenas um choque à toa, mas ele insistiu em ver meu braço. Mostrei o local meio avermelhado e ele me pediu mil desculpas e solicitou ao garçom um copo com um pouco de gelo, para passar no local. Achei tudo um exagero. Havia sido um choque comum, nada exagerado. Ele perguntou a um pessoal do lado se poderia puxar uma das cadeiras e me fez sentar ali mesmo, enquanto esperava o garçom com o gelo. Cuidadosamente, colocou o gelo sobre o local avermelhado e, só então, se apresentou. Seu nome soou como música: Fábio. Apresentei-me também e começamos a conversar sobre assuntos variados, enquanto ele acariciava delicadamente o meu braço no gelo e aquelas carícias produziam uma sensação que eu não estava acostumada a sentir há tempos.
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A moça da quitanda

E era na verdade uma sensação estranha que enfrentava, uma mistura de medo com prazer, mas não havia pudor em questão, o medo era mais em saber que o caminho era sem a possibilidade de volta. Adiante estaria aquele trabalho registrado indelevelmente em sua vida, estaria fechada a porta de poder apagar seu passado algum dia caso assim quisesse. No camarim de estrela com seu nome pensou na moça do interior que despertava a tara dos abastados que passavam de caminhonete na frente da quitanda do pai. Entre as cores e cheiros das frutas adorava desfilar com o vestido rodado feito pela tia, e ela moça sorria de vergonha sempre afeita de um absurdo frescor casto.
Agora era diva, poderosa, requisitada em shows nas casas noturnas, mas e as saudade dos pais? E o futuro sem a família católica que não a aceitava e não a entendia? E, não era um medo recheado de pudor, era mais do que isso.

Adorava sim as jóias caras e os presentes que ganhava, mas era quão prazeroso o bolo de fubá da mãe e o café quentinho da fazenda.
Sentia-se satisfeita mesmo quando a vó falava com orgulho da neta, que esta se formaria doutora em bichos. E tenho dito, terminava a velha.
Começou nessa vida quando ainda tinha que pagar os estudos na faculdade, uma amiga que “ganhava bem” lhe deu a dica. E ela foi, seu primeiro programa foi com um mancebo virgem, até gostou e quase gozou, pensou que não seria tão difícil, muito embora trabalhos seguintes lhe deram o choque de realidade, sendo assim, teve que tratar com todo o tipo de gente, eventualmente, alguns casais e até com os clientes tarados de gostos escatológicos, mas que sempre pagavam bem.
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