Entrega a Marilda

Marilda era mulher de postura firme. Formada em administração na melhor faculdade federal, veio tornar-se executiva de sucesso. A carreira custou-lhe muito esforço, abdicou de um noivado e alguns relacionamentos, quiçá, rendessem-lhe um esposo, ou uma família, quem sabe? Era seu aniversário. Trinta e seis anos, logo, sua maior crise depressiva.Ninguém havia lhe cumprimentado, as ocorrências no serviço eram as mesmas corriqueiras do cotidiano de uma diretora executiva. Entrou e saiu do trabalho do mesmo modo habitual de todos os dias. Nem um aceno, sorriso ou beijo na face. Repetiram-se os insípidos “Bom dia Dra. Marilda”. Porteiros, seguranças, recepcionistas, secretárias, amigos da executiva, antigos namorados, irmãos, tias do interior, nem mesmo sua mãe lembrara. Traidores!

Ninguém! Era pouco, ou seja, muita solidão para um ser humano dedicado, mesmo sendo a carreira o fruto único da dedicação.

Penosa mesmo é a noite de um aniversariante esquecido. Marilda, além do ostracismo, teve que suportar um mundo de água que despencava do céu em sua cabeça. Chovia torrencialmente.

“Só pode ser castigo!”, dizia olhando para o céu.

Em casa, entretanto, surgiu uma esperança. A caixa do correio, talvez. Debaixo d’água ela correu ao muro onde a caixa estava chumbada.

Nada, nenhuma carta, cartão ou bilhete que o valha. A secretária eletrônica, óbvio, marcaram a festa surpresa e deixaram o recado, talvez. Primeiro o ruído da fita e, em seguida dois toques, o último era o de misericórdia, NENHUM RECADO.

Mas quem haveria de ligar, mandar bilhete ou cartão de aniversário em meados do século vinte e um? Era tão lógico, sua caixa de e-mail estaria lotada!

A ansiedade era inexcedível perante a demora da conexão na rede, 40s. Conectado. Caixa de entrada,… vazia. Clicou em “enviar/receber”, nada. Desligou.

O mundo dos competentes reserva aos seus o poder de entender o momento de ceder. E ela cedeu. Todavia, das sobras dos anseios da esperança há os resquícios da compulsão.

Acendeu um cigarro e abriu a garrafa de Vodca russa que guardara para o aniversário, seguiram-se os primeiros tragos e goles de muitos na noite. Apanhou o telefone celular na bolsa, iria ligar para alguém, precisava conversar. Um amigo, paquera ou um conhecido qualquer. Talvez um belo garoto de programa, afinal, duas horas de sexo pra relaxar seria proveitoso para saciar sua carência afetiva.

Gostava de mulatos fortes, havia namorado dois na faculdade. Há muito tempo não namorava. Beijo na boca, abraços, língua, dedos etc. “Nossa, faz tempo”.

Colocou um jazz. Miles Davis não é uma boa escolha em noites assim, mas…

Não, não iria se corromper à indústria do sexo. Sabia de histórias que envolviam executivos com garotas de programa. Gabinetes lotados de náufragos da luxúria. Chantagens eram providentes de serviços amadores. Precisava ser cautelosa, não sabia de serviços profissionais. O máximo de informação sobre o assunto era o dos anúncios dos jornais que, por curiosidade, conferia coisas do tipo: “Ricardo, macho louro, alto, metro e oitenta, dote 22cm…”.

Desistiu. Discou outro número. DESESPERADA.

“Pois não”.

“De onde fala?”

“Serviço de entrega de pizza”.

“Por favor, eu quero pedir…” – chorando – “uma pizza meio calabresa meio portuguesa, por favor”.

“Refrigerante?”, a telefonista.

“Não, ninguém ligou”, aos prantos

“Como, senhora?”.

“Não! nem um mísero telefonema”.

“Desculpe! Mas não estou entendendo, a ligação está muito ruim”.

“Eu esperava um mínimo de consideração”, chorando ainda mais desesperadamente.

“Qual endereço, por favor?”, disse a telefonista mudando de assunto.

“Avenida das Margaridas, 13, bem rápido! Desligou soluçando”.

Trinta minutos até a chegada de Agenor, o entregador. Mulato forte, 1,90 m de altura.

Quase houve insucesso na entrega, muitos toques no interfone e várias palmas e ninguém respondia. O vento forte da chuva abriu o portão somente encostado. Agenor entrou ressabiado, não era de praxe entrar sem autorização na casa dos outros, mas não poderia voltar com o produto, pois, novato no emprego, precisava mostrar serviço.

A casa era linda, Agenor impressionou-se com a decoração do jardim com flores de todas as cores do arco-íris, onde, mais à frente, havia um chafariz de vidro em forma de cinco anjos nus, mijando na piscina azul em forma de cisne.

“Esse monte de estátuas só vi no museu, na época do ginásio”, pensou.

Escutou o som que vinha da sala de estar e adentrou. A música era estranha, mas agradável. Um aroma de incenso impregnava o ambiente, sala com móveis modernos, claros e espalhados. A iluminação era pouca, meia luz, meio azul ou roxa, talvez lilás.

“A pizza…?!”.

“Fique comigo ou me deixe morrer”, murmurou Marilda com a voz carregada de drama.

“Que susto!”, de sobressalto, Agenor.

A cena que Agenor presenciava era a de uma mulher nua e bêbada dependurada a um lençol de seda, vermelho, amarrado a um lustre e, no seu pescoço, quase enforcada, sustentava o corpo com as mãos seguras no colarinho formado pelo lençol, os dedos dos pés tentavam encontrar apoio, roçavam sem sucesso o tapete macio de cor branca.

Mesmo a situação sendo de risco, ele não conseguia deixar de olhar a exposta vulva fulva de clitóris rosado de Marilda.

“Fique comigo ou me deixe morrer, ahhhhhh!”, Marilda gemia depois de contorcer seu corpo alva repleto de sardas. Era a linha entre o suicídio e o fetiche.

Agenor, rapaz humilde, tinha ouvido falar de gente que levava o sexo ao limite.

“Gente doida”, pensou.

Enquanto o céu ainda desabava em água. A verdade é que cinco horas de espancamento, mútuo e muito sexo brutal, davam início a um relacionamento de muito futuro e prazer.

Agenor e Marilda foram morar juntos meses depois.

Por Carlos Biasoli