A moça da quitanda

E era na verdade uma sensação estranha que enfrentava, uma mistura de medo com prazer, mas não havia pudor em questão, o medo era mais em saber que o caminho era sem a possibilidade de volta. Adiante estaria aquele trabalho registrado indelevelmente em sua vida, estaria fechada a porta de poder apagar seu passado algum dia caso assim quisesse. No camarim de estrela com seu nome pensou na moça do interior que despertava a tara dos abastados que passavam de caminhonete na frente da quitanda do pai. Entre as cores e cheiros das frutas adorava desfilar com o vestido rodado feito pela tia, e ela moça sorria de vergonha sempre afeita de um absurdo frescor casto.
Agora era diva, poderosa, requisitada em shows nas casas noturnas, mas e as saudade dos pais? E o futuro sem a família católica que não a aceitava e não a entendia? E, não era um medo recheado de pudor, era mais do que isso.

Adorava sim as jóias caras e os presentes que ganhava, mas era quão prazeroso o bolo de fubá da mãe e o café quentinho da fazenda.
Sentia-se satisfeita mesmo quando a vó falava com orgulho da neta, que esta se formaria doutora em bichos. E tenho dito, terminava a velha.
Começou nessa vida quando ainda tinha que pagar os estudos na faculdade, uma amiga que “ganhava bem” lhe deu a dica. E ela foi, seu primeiro programa foi com um mancebo virgem, até gostou e quase gozou, pensou que não seria tão difícil, muito embora trabalhos seguintes lhe deram o choque de realidade, sendo assim, teve que tratar com todo o tipo de gente, eventualmente, alguns casais e até com os clientes tarados de gostos escatológicos, mas que sempre pagavam bem.
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